Sempre imaginei que em classes sociais mais abastadas, o machismo fosse menor. Afinal de contas, são as pessoas que têm mais acesso às universidades, a viagens internacionais, portanto, convivem com outras culturas menos machistas, num mundo mais cosmopolita e menos preconceituoso. Bem, ledo engano.

No ultimo verão, fazia um dia lindo de sol e resolvi sair pra almoçar, tomar uns drinks e me divertir com o meu marido. Sou casada há dois anos e optamos por não ter filhos, então esse tipo de programa é o nosso favorito. Pela indicação de um amigo, fomos ao 300 Cosmo Beach Cub. Lá é um misto de restaurante com balada. O lugar é super agradável. Fica na praia mais badalada daqui: Jurerê Internacional. Tem música eletrônica todas as tardes de sábado. Fiquei bem feliz com a escolha. Era exatamente o que eu queria, curtir uns petiscos e uns drinks gostosos com o maridão no sábado à tarde.

Assim que chegamos, logo na entrada, a recepcionista comenta como funciona a casa, os valores e etc. O consumo é controlado por uma pulseira, que coloca no braço de cada um, de forma que não há confusão na mesa de quem consumiu o que. Até aí, eu estava achando tudo excelente. Os garçons eram muito educados. O marido foi ao banheiro e eu, com um outro amigo na mesa, resolvi pedir logo a minha cervejinha. Chamei o garçom, perguntei qual cerveja tinha e optei por pedir um baldinho com várias, para colocar à mesa. Quando o garçom foi passar o leitor de códigos de barras na minha pulseira disse que eu não poderia consumir. Eu não entendi! Perguntei se o sistema era pré-pago e ele disse que não, paga-se ao final. Mas como eu entrei acompanhada, somente o homem poderia pedir a bebida. Somente a pulseira masculina é compatível com pedidos e um conta no final, a feminina não.

Eu não acreditava naquilo! Fiquei atordoada. Perguntei novamente: eu não posso escolher a bebida que vou consumir e pagar a minha conta, somente o marido pode pedir uma bebida, ou qualquer outra coisa, por mim??? Fiquei indignada e comecei o meu discurso! Falei que estamos no século XXI, que as mulheres no Brasil têm a sua própria renda e que podem pagar pelas bebidas ou qualquer outra coisa que queiram pedir num restaurante. Falei que era uma vergonha para uma casa daquele nível, determinar que somente o homem pode escolher o que consumir, e, que a mulher tem que ficar à mercê da sua boa vontade. Um absurdo! Falei que aquela determinação desvalorizava as mulheres.  Falei que, por mais que lutemos, esses atos dão mais força aos homens machistas acharem que têm poder sobre nós. Falei que se vou a um restaurante é porque tenho condições de pagar a minha própria conta, que nunca dependi de ninguém para isso e que, tenho certeza, muitas mulheres, que frequentam lá, são como eu.

No fim, o garçom já estava desconsertado, coitado, nem era culpa dele. Meu amigo, super sem graça, já queria que fosse pedida logo a bebida na conta dele pra resolver o assunto. O meu marido chega do banheiro, não entende o que está acontecendo, estica o braço e o garçom passa o leitor de código de barras, o mais rápido que pôde, para sair logo daquela situação.

A tarde não foi mais a mesma. Fiquei refletindo sobre aquilo. Naquela situação não ia fazer tanta diferença pra mim, pois o nosso cartão de crédito é conjunto. Mas pensei na menina que está super encantada com o novo gatinho e aceita o seu convite para sair. Ao entrar no restaurante, lhe é colocada uma pulseira para controle de consumo “de casal”. Quando ela for escolher o que pedir, ela descobre que terá que se sujeitar ao homem ter que pagar o seu consumo. Sem direito de escolha. Que situação! Poderia até ser que ele fizesse essa gentileza no fim do passeio, mas não ter nem o direito de escolha? E se o cara for um mala e ela não quiser ficar a noite inteira do lado dele? Não pode sair de perto e curtir sozinha?

Enfim, achei aquilo realmente surreal! Eu trabalho, assim como meu marido, e, na minha casa, dividimos tudo: as contas, o dinheiro, as responsabilidades, as tarefas domésticas, enfim, tudo. Não há machismo. Não somos tão novos (eu tenho 31 e ele 39) e, mesmo assim, machismo nem passa perto da nosso relacionamento. Assim nos foi passado pelos nossos pais: todos têm direitos iguais. Apesar de serem de outra geração, onde realmente o machismo era, ainda, mais arraigado, não viviam dessa forma. E não vivem até hoje. Ambos sempre tiveram, cada um, a sua renda. Sempre dividiram tudo. Até hoje, o que vemos aos fins de semana, é meu pai e meu sogro se revesando com a esposa nas tarefas domésticas: quando um cozinha o outro lava a louça.

Fico feliz por ter sido criada assim e viver nessa realidade. Talvez, por isso, o machismo me choca tanto. O episódio é ínfimo perto de todas as atrocidades que assolam as mulheres, como a violência doméstica. Só de pensar me embrulha o estômago, mas isso é assunto para outro post, não é mesmo?!

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Sou apaixonada por viagens, chopp, vinhos, restaurantes charmoso e tudo que seja muita curtição. Procuro sempre não julgar ninguém e respeitar as escolhas de cada um, afinal, pra mim, o que importa na vida é ser feliz.